domingo, 2 de novembro de 2008

Requiem aeternam dona eis














REQUIEM AETERNAM DONA EIS

Outro dia, escrevi, aqui no meu blog, acerca de um bar lá de São Paulo que o meu amigo Pedro Evangelista me apresentou. Agora, vou falar sobre outro, que em nada se parece com o de São Paulo. Aliás, não era um bar na acepção de boteco, era um café-bar.

O tal café-bar nasceu para atender um tipo de clientela que, a meu ver, não entendeu a sua proposta. Contudo, foi conquistando outro tipo de clientela: os que queriam (ainda querem) mais uma opção pras noites da cidade.

Logo, o lugar começou a atrair os intelectuais. Claro que, no começo, não era uma unanimidade, mas, aos poucos, foi se impondo.

O famoso sarau literário denominado de Sarau Benedito, se instalou por lá às segundas-feiras e, com ele, apareceram pessoas de todas as tribos, atraídas pelo burburinho tão característico desses encontros culturais.

No meu entender, o lugar tinha um ambiente de bom gosto, tanto internamente, quanto externamente. A comida era de primeira. Os queridos cucas eram todos saídos da escola de gastronomia da Univali. A música, quando ainda não era ao vivo, era bem segmentada e atendia a todos os gostos. Depois, uniu-se à casa o melhor da musicalidade local.

Quando comecei a freqüentar o lugar, adotei uma mesa do lado de fora, a do lado direito da entrada principal. Sempre achei o lado de fora um local privilegiado pra quem gosta de observar a vida cotidiana de um burgo. Eu dava (ainda dou) tanta importância a isso, que chegava ao ponto de ficar deprimido quando encontrava a mesa ocupada por uma ou mais pessoas. Que acinte! Pensava eu, revoltado. Pegaram a minha mesa! Mas logo me acalmava e tomava o meu lugar de direito assim que o(s) invasor(es) se retirava(m). Confesso que fazia uma mentalização dos diabos para que ele(s) fosse(m) embora. Mesa limpa, pronto, lá ia eu ocupar o meu lugar de direito! Em seguida, pedia a minha tequila de sempre, servida sem sal, por causa da minha pressão alta. Continuamente, fui atendido de maneira cordial pelos seus garçons e garçonetes. - Boa tarde seu Hélio! Boa noite seu Hélio! Tudo bem, seu Hélio!

Comigo, se sentavam vários colegas para uma prosa, ou de passagem. Alguns, porque tinham me visto, sentado, marcando o meu ponto. Por um tempo, pensei até na possibilidade de mandar fazer uma estátua minha sentado, para quando eu fosse dessa pra outra. Deixaria uma carta para os donos pedindo que “me” pusessem lá na “minha mesa”... Em Portugal, o Pessoa, no Rio, o Drummond e em Itajaí, o Helinho... Desculpem, mas não resisti a escrever isso!

Sobre os donos, eles eram e ainda são pessoas muito queridas; simpáticos e gentis. Atendiam-nos a todos como devem ser atendidos os clientes, fiéis ou não de todos os estabelecimentos comerciais. Ainda fui visitá-los lá em Piçarras, onde fizeram funcionar um pequeno restaurante numa daquelas marinas que existem por lá. Boa gente eles!

Mas como tudo na vida tem a hora para terminar, o lugar que, se tivesse demorado mais um tempo funcionando, faria de Itajaí um lugar melhor no que diz respeito à pluralidade de idéias e gostos, finalmente, fechou suas portas.

Quando a notícia me chegou, não acreditei. Então fui tomar “satisfações” com os donos. Isso é impossível! Como podem?! Claro que não falei nada disso pra eles. Dias antes do fechamento das cortinas, conversamos. Eles sentaram comigo como se sentam os amigos ou parentes para explicar o porquê da morte súbita do doente. Tiveram todo o cuidado para não me ferir os sentimentos. Eu ouvi tudo contristado. Por fim, tomei a palavra e lamentei que a cidade tivesse que ficar com apenas uma opção. No fundo, eu queria dizer “eu tinha ficado com apenas uma opção” para meus actus etilicus de cada dia. Não podiam fazer mais nada. Estava tudo consumado! Tinham o dia e a hora marcada para o inevitável e triste final.

O lugar, enfim, morreria! Mas ainda tive coragem para dizer adeus ao futuro defunto, na sexta feira, dia em que os donos ofereceram uma festa aos viúvos e viúvas, como se fosse uma espécie de velório baiano. Nessa noite de despedida, pra lá acorreram todos; alguns lamentando tanto quanto eu; outros nem tanto assim. Terminado o “velório”, haviam bebido tudo! Até a última gota de chope e cerveja. Aos poucos, foram todos embora, restando apenas os entes queridos, ou seja, Juna e Gustavo, os seus funcionários, incluindo seu José, o vigilante, além de Belinha, a cachorrinha. Recolheram as coisas do lado de fora, apagaram as luzes e fecharam as portas.


Na segunda-feira, que pra mim parecia uma quarta-feira de cinzas, masoquista, resolvi passar na frente e senti uma dor doída de quem perdeu alguém. Mas como dizia o Nelson Ned “(...) Mas tudo passa tudo passará. E nada fica, nada ficará. (...)” e mais recentemente, o Lulu Santos, “(...) Tudo passa, tudo sempre passará (...)”. O café-bar passou, mas ficaram as pessoas que dele gostavam e, todas as vezes que elas falam sobre um barzinho, logo se lembram do Aldeia Bistrô.

17 comentários:

Rubens da Cunha disse...

pena, morreu sem eu conhecer e dizer um poema por aí...

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Pois é, Rubens, agora só resta esperar pra ver no que irá voltar na próxima reencarnação. Quem sabe reencarnará numa choparia ou um pub britânico? Que faz falta, lá isso ele faz!

abraços

enzo ozne disse...

my friend, que otemo ler esta elegia ao Aldeia.
olha, eu também sinto falta demais de lá.
e eu também tenho meu momento egoico da cidade: meu sonho é andar num Papa móvel de Ilhota à Cabeçudas!!!

abraçon!!

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Gostei do Enzo Ozne, nome de rockeiro drogado, digno mesmo pra quem quer andar de PapaMóvel! Dá até pra dizer: Sabe quem comentou no meu blog? Não. O Enzo Ozne. Não!!! Foi mesmo? Foi! Um luxo!

Enzo Potel disse...

para o reflexões mortas!

"não existe bala perdida: você tinha que passar por aquilo. Ou aquilo tinha que passar por você"


ahahahahha
do meu poema "Enguia".

e adorei as pernas curtas!

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Valeu Ozne! Logo postarei devidamente autorizado!

Paulo Henrique de Moura - Jornalista disse...

Oi Hélio obrigado! Que bom que gostou!
Pode colocar como link sim!
Também achei muita coisa mas...na próxima remodelaremos isso!
Esta semana estou fazendo o curso de vídeo do SESC.
Vou colocar o teu como link no meu também para que eu possa acessar!

Abraço

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Okay, Paulo.

Espero que vc traga mais mostras e boa sorte no curso lá no Sesc!

Roberta disse...

No final, sempre sobram as lembranças...

Hélio Jorge Cordeiro disse...

E com elas, Roberta, nós mesmos.

Rômulo disse...

Como diria o Ica, famoso personagem itajaiense, "que fota"...

realmente, o Aldeia até hoje deixou cicatrizes em todos nós... eu sou um....

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Então, Mafra, quando me referi as viúvas e viúvos, estava falando de você também!

Além disso, essa vidinha monogâmica está me matando! rss

Rômulo disse...

ahahahahahahaha

sim sim... ô vidinha chata...

Anônimo disse...

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