quinta-feira, 9 de maio de 2013

Vamos lispectar!




























O Crime do Professor de Matemática
Clarice Lispector
(do livro Laços de Família)

Quando o homem atingiu a colina mais alta, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão.

Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava como se fosse de pedra, pensou. Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura - sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia porque esperar mais.
 
E no entanto aguardava. Certamente os óculos o incomodavam porque de novo os tirou, respirou fundo e guardou-os no bolso.
 
Abriu então o saco, espiou um pouco. Depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. Todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos profundamente fechados enquanto puxava. Quando os abriu, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.
O cachorro desconhecido estava à luz.
 
Então ele se pôs metodicamente a trabalhar. Pegou no cachorro duro e negro, depositou-o numa baixa do terreno. Mas, como se já tivesse feito muito, pôs os óculos, sentou-se ao lado do cão e começou a observar a paisagem.
 
Viu muito claramente, e com certa inutilidade, a chapada deserta. Mas observou com precisão que estando sentado já não enxergava a cidadezinha embaixo. Respirou de novo. Remexeu no saco e tirou a pá. E pensou no lugar que escolheria. Talvez embaixo da árvore. Surpreendeu-se refletindo que embaixo da árvore enterraria este cão. Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o "outro", quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto.

 
Em breve, por excesso de escrúpulo, estava ocupado demais em procurar determinar rigorosamente o meio da chapada. Não era fácil porque a única árvore se erguia num lado e, tendo-se como falso centro, dividia assimetricamente o planalto. Diante da dificuldade o homem concedeu: "não era necessário enterrar no centro, eu também enterraria o outro, digamos, bem onde eu estivesse neste mesmo momento em pé". Porque se tratava de dar ao acontecimento a fatalidade do acaso, a marca de uma ocorrência exterior e evidente - no mesmo plano das crianças na praça e dos católicos entrando na igreja - tratava-se de tornar o faro ao máximo visível à superfície do mundo sob o céu. Tratava-se de expor um fato, e de não lhe permitir a forma íntima e inpune de um pensamento.
 
À idéia de enterrar o cão onde estivesse nesse mesmo momento em pé - o homem recuou com uma agilidade que seu corpo pequeno e singularmente pesado não permitia. Porque lhe pareceu que sob os pés se desenhara o esboço da cova do cão.
 
Então ele começou a cavar ali mesmo com pá rítmica. Às vezes se interrompia para tirar e de novo botar os óculos. Suava penosamente. Não cavou muito mas não porque quisesse poupar seu cansaço. Não cavou muito porque pensou lúcido: "se fosse para o verdadeiro cão, eu cavaria pouco, enterrá-lo-ia bem à tona". Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade.
 
Afinal largou a pá, pegou com delicadeza o cachorro desconhecido e pousou-o na cova.
Que cara estranha o cão tinha. Quando com um choque descobrira o cão morto numa esquina, a ideia de enterrá-lo tornara seu coração tão pesado e surpreendido, que ele nem sequer tivera olhos para aquele focinho duro e de baba seca. Era um cão estranho e objetivo.
 
O cão era um pouco mais alto que o buraco cavado e depois de coberto com terra seria uma excrescência apenas sensível do planalto. Era assim precisamente que ele queria. Cobriu o cão com terra e aplainou-a com as mãos, sentindo com atenção e prazer sua forma nas palmas como se o alisasse várias vezes. O cão agora era apenas uma aparência do terreno.
 
Então o homem se levantou, sacudiu a terra das mãos, e não olhou nenhuma vez mais a cova. Pensou com certo gosto: acho que fiz tudo. Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.
 
E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.
 
Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança.
 
"Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua", pensou então com auxílio da saudade. "Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu - como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei", refletiu curioso.
 
"Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente", pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.
 
"Lembro-me de ti quando eras pequeno", pensou divertido, "tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Mas desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro que se podia abandonar. Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão", lembrou-se o homem satisfeito, "tu terminava me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar."
 
"E como cheiravas as ruas!", pensou o homem rindo um pouco, "na verdade não deixaste pedra por cheirar... Este era o teu lado infantil. Ou era o teu verdadeiro cumprimento de ser cão? e o resto apenas brincadeira de ser meu? Porque eras irredutível. E, abanando tranquilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. Ah, sim, eras irredutível: eu não queria que comesses carne para que não ficasses feroz, mas pulaste um dia sobre a mesa e, com uma ferocidade que não vem do que se come, me olhaste mudo e irredutível com a carne na boca. Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu, eu disfarçava como podia. Às vezes, sentado sobre as patas diante de mim, como me espiavas! Eu então olhava o teto, tossia, dissimulava, olhava as unhas. Mas nada te comovia: tu me espiavas. A quem irias contar? Finge - dizia-me eu -, finge depressa que és outro, dá a falsa entrevista, faz-lhe um afago, joga-lhe um osso - mas nada te distraía: tu me espiavas. Tolo que eu era. Eu fremia de horror, quando eras tu o inocente: que eu me virasse e de repente te mostrasse meu rosto verdadeiro, e eriçado, atingido, erguer-te-ias até a porta ferido para sempre. Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo."

 
"Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa."
 
"Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou-te. Com alívio sim, pois exigias - com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heroico - que eu fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? 'Que não cabe em parte alguma', disse Marta prática. 'Que incomodará os passageiros', explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer", pensou o homem cada vez mais lúcido.
 
"Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão", pensou o homem. "Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível."

 
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.
 
Um homem ainda conseguia ser mais esperto que o Juízo Final. Este crime ninguém lhe condenava. Nem a Igreja. "Todos são meu cúmplices, José." Eu teria que bater de porta e porta e mendigar que me acusassem e me punissem: todos me bateriam a porta com uma cara de repente endurecida. Este crime ninguém me condena. Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar - e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar."
 
O homem tirou os óculos, respirou, botou-os de novo.
 
Olhou a cova coberta. Onde ele enterrara um cão desconhecido em tributo ao cão abandonado, procurando enfim pagar a dívida que inquietantemente ninguém lhe cobrava. Procurando punir-se com um ato de bondade e ficar livre de seu crime. Como alguém dá uma esmola para enfim poder comer o bolo por causa do qual o outro não comeu o pão.

 
Mas como se José, o cão abandonado, exigisse dele muito mais que a mentira: como se exigisse que ele, num último arranco, fosse um homem - e como homem assumisse o seu crime - ele olhava a cova onde enterrara a sua fraqueza e a sua condição.
 
E agora, mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido. Ele não devia ser consolado. Procurava friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido. Abaixou-se então, e, solene, calmo, com movimentos simples - desenterrou o cão. O cão escuro apareceu afinal inteiro, infamiliar com a terra nos cílios, os olhos abertos e cristalizados. E assim o professor de matemática renovara o seu crime para sempre. O homem então olhou para os lados e para o céu pedindo testemunha para o que fizera. E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família.

Vamos leminskar!

























MERDA E OURO
Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

Paulo Leminski

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Coisas da Cecília


















  

Coisas das Esfinges

Por Cecília Meireles

Viver não é fácil, mas andar pelas ruas desta minha amada cidade é muito mais difícil. Primeiro porque os tufões que têm passado por aqui se empenharam particularmente em revolver o calçamento; depois, porque os automóveis têm aumentado de maneira considerável e, em matéria de trânsito, a  tendência é caminharem os pedestres pelo meio da rua e trafegarem os automóveis pelas calçadas.

Mas, enfim, a cidade é tão bonita – sobretudo agora com as amendoeiras a perderem as folhas vermelhas e amarelas  - que muita coisa se perdoa aos automóveis e aos tufões.
Acontece, porém que os habitantes desta cidade (e nem todos são crianças) se distinguem por uma invencível amabilidade, um desejo de comunicação difícil de explicar nestes tempos de pressa e indiferença. Quando menos se espera, alguém para diante de nós, e pergunta com evidente satisfação pela charada que nos vai propor:

- A senhora não é Dona Fulana?
- Claro que sou.
- E eu? Lembra-se de mim? Sabe o meu nome?

Eis-nos em pleno deserto, diante da Esfinge. Começa-se a recordar: um cavalheiro assim, desta altura, com esta voz, de óculos, traje azul-marinho, aliança no dedo, gravata de pintinhas... (Mas todos os cavalheiros podem ter gravatas de pintinhas, traje azul-marinho, óculos, e há muitos cidadãos desta altura e até de aliança no dedo...)

- Pense um pouco, diz a Esfinge cruel.

Pensemos.

- Conheço-a desde o tempo de estudante, quando caminhava como quem pisa violetas... ( Bem, deve ser um poeta: percorramos depressa o fichário dos poetas.... Mas é impossível: não somos todos poetas no Brasil?)

A Esfinge diverte-se; aliás, com uma ponderação, uma cortesia, uma finura que assentam bem numa Esfinge.

- O senhor (murmura o suplente de Édipo), o senhor deve ser um famoso orador, um grande mestre, um deputado, um catedrático...

- Ah! Como as mulheres esquecem... A senhora não se lembra de mim; e eu acompanho toda a sua vida, leio todos os seus livros, sei das suas viagens, das suas conferências (nem sempre compareço, é verdade, mas tenho notícias...) A senhora fixou apenas que sou uma criatura verbosa, retórica... Pois vou ajudá-la...

E então, como se subíssemos para um tapete mágico, principiamos a viajar no tempo. Histórias e histórias se sucedem, jamais completamente verídicas, porém muito mais belas, por imaginárias e transcendentes. E nós por aqui e por ali, pisando violetas, colhendo estrelas, batendo asas, derramando neste mundo cornucópias de sonhos...
É preciso que um automóvel suba a calçada para descermos desse arrebatamento. E quase sempre a Esfinge parte sem nos dizer seu nome, deixando-nos apenas a sensação do irreal que somos,  neste mundo de sonhos e memórias...

(extraído do livro de crônica “Ilusões do Mundo” – Nova Fronteira – 2ª edição – 1982)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

As Formigas de Lygia


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AS FORMIGAS

Por Lygia Fagundes Telles

 

Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite.

Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas,

iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada.

Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.

— É sinistro.

Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha?

Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor

a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro

no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos

fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio.

Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

— Pelo menos não vi sinal de barata — disse minha prima.

A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do

que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa

e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta

de esmalte vermelho-escuro descascado nas pontas encardidas.

Acendeu um charutinho.

— É você que estuda medicina? — perguntou soprando a

fumaça na minha direção.



— Estudo direito. Medicina é ela.

A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar

pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão

densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada

de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha

furada no assento, duas almofadas que pareciam ter

sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados

salpicados de vidrilho.

— Vou mostrar o quarto, fica no sótão — disse ela em

meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos.

— O inquilino antes de vocês também estudava medicina,

tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui,

estava sempre mexendo neles.

Minha prima voltou-se:

— Um caixote de ossos?

A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir

a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu

a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive

tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar

de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de

palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase

se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto

com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e

pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça de corda.

Levantou o plástico. Parecia fascinada.

— Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?

— Ele disse que eram de adulto. De um anão.

— De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados...

Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão.

E tão limpo, olha aí — admirou-se ela. Trouxe na ponta dos

dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. — Tão

perfeito, todos os dentinhos!

— Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode

ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão

usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente, extra. Telefone,

também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na



cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa — recomendou

coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente.

Soltou uma baforada final: — Não deixem a porta

aberta senão meu gato foge.

Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho

dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada.

Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num

cabide que enfiei num vão da veneziana, prendi na parede,

com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso

de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima

subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima

que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar

atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola.

O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a

gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim,

alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho.

Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco

tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza

com que se amontoam ovos numa caixa.

— Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta

nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no

fim da semana começo a montar ele.

Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão,

minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava

estudar até a madrugada e depois fazia sua ceia.

Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.

— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Fui

até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. — Você não está

sentindo um cheiro meio ardido?

— É de bolor. A casa inteira cheira assim — ela disse. E

puxou o caixotinho para debaixo da cama.

No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido

no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se

na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou

muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, Tem um anão



no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada

no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum

ponto do assoalho.

— Que é que você está fazendo aí? — perguntei.

— Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas.

Tão decididas, está vendo?

Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que

entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta,

atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho

de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como

um exército em marcha exemplar.

— São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem

trilha de volta, só de ida — estranhei.

— Só de ida.

Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua

cama.

— Está debaixo dela — disse minha prima e puxou para

fora o caixotinho. Levantou o plástico. — Preto de formiga!

Me dá o vidro de álcool.

— Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas

descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava

isso lá pra fora.

— Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse.

Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria

saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.

Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida,

calçou os sapatos e, como uma equilibrista andando

no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na

trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro.

Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.

— Esquisito. Muito esquisito.

— O quê?

— Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me

lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E

agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de

cada lado. Por acaso você mexeu aqui?



— Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão.

Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com

o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá.

No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura

que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança

passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que

levava as mãos à cabeça, como uma pessoa desesperada.

Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.

Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo

pesadelo com os exames, o professor fazendo uma pergunta

atrás da outra e eu muda diante do único ponto que

não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou

veementemente. Travei a campainha. Minha prima dormia

com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para

as paredes, para o chão de cimento, à procura delas. Não vi

nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri

as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido.

Olhei para o chão: desaparecera também a trilha

do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi

o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.

Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima

já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal

da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio

voraz. Então me lembrei.

— E as formigas?

— Até agora, nenhuma.

— Você varreu as mortas?

Ela ficou me olhando.

— Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?

— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga

nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou

tudo... Mas então, quem?!

Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando

se preocupava.

— Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.

Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti



de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia um cheiro

assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima

para esse aspecto, mas ela estava tão deprimida que achei

melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia Flor de Maçã

por todo o quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e

fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho, que competia

nas repetições com o tal sonho da prova oral, nele eu

marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo.

E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era

levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo,

desta vez, era o anão. Quando só restou o oco de

silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me

trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava

sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente

estrábica.

— Elas voltaram.

— Quem?

— As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada.

Estão todas aí de novo.

A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo

percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia

na mesma formação até desformigar lá dentro. Sem caminho

de volta.

— E os ossos?

Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.

— Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo

mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três

horas. Na volta, senti que no quarto tinha algo mais, está

me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas,

você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui

ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas

não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa

mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição,

eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco

eles estão... Estão se organizando.

— Como, se organizando?



Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei

uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o lençol.

— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei

ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada,

uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando

o seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto,

mais um pouco e... Venha ver!

— Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é

isso?

Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que

nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o

maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha

desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça

entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não

estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos

juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para

a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e

vivas desapareciam com a luz do dia.

Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve

festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta.

Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima

arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando

no fogareiro.

— Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia — ela avisou.

O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.

— Estou com medo.

Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca,

me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me

despir.

— Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto

não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é daqui a

pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta,

sabe que não consigo descobrir de onde brotam?

Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da

escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo

até o quarto, Acorda, acorda! Demorei para reconhecer



minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida.

E vesga.

— Voltaram — ela disse.

Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.

— Estão aí?

Ela falava num tom miúdo, como se uma formiguinha

falasse com sua voz.

— Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta.

Quando acordei, a trilha já estava em plena movimentação.

Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava...

— O que foi? Fala depressa, o que foi?

Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da

cama.

— Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende?

O esqueleto já está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos

da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora

daqui.

— Você está falando sério?

— Vamos embora, já arrumei as malas.

A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.

— Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?

— Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde.

Vamos, levanta!

— E para onde a gente vai?

— Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos

que sair antes que o anão fique pronto.

Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas.

Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei

o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas

pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto,

deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou

foi um grito?

No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando

encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era

penumbra.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Reflexão sobre ser ou não ser escritor




















Meus caros amigos, estive pensando por esses dias sobre estar escrevendo livros e cheguei a conclusão de que eu não escrevo para que o leitor me reconheça como escritor, mas apenas para preencher seu o tempo, escrevendo de maneira simples, sem os arroubos estilísticos tão comuns aos verdadeiros literatos. Outra coisa é que, no meu entender, o autor desaparece depois que a primeira página é virada e o livro é aberto; a obra agora não será mais dele.