terça-feira, 12 de julho de 2011

As mãos pelos pés.

















Quando procurei suas mãos,


não as encontrei.


Ela, as havia escondido,


para que eu não as queimassem.


Assim, só me restaram seus pés,


que logo os transformei em brasas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Café com Cicuta II

















Depois de experimentar o famoso café com cicuta, resolvi arriscar um convite ao meu amigo:


“Que tal, mais tarde sairmos um pouco, poeta?” – disse arriscando receber um indiferente silêncio e ele me chamar a atenção para a roupa que um sujeito de bigodinho fino estava usando, mas Enzo olhou para mim e disse com sua usual elegância no falar:


“Meu querido anônimo, você está me cantando?” – perguntou, enquanto eu fiquei, por alguns instantes, entorpecido, sem palavras. Vendo o meu estado catatônico, ele continuou: “Brincadeira, anônimo. Só queria fazer a digestão de tantos cafés que tomei esta tarde, aqui nesse lugar chistoso. Claro, que quero sair, por que não? Aonde o amigo anônimo quer ir?” – disse ele, agora com uns dois centavos de dólar de sorriso no seu rosto jovial cheio de força, diferente do meu, cansado e sem a seiva da mocidade. Saí do transe do receio para sorriso dos felizes. “Às oito?”, “Sim, as oito”. ”No meu ou no seu hotel” – eu indaguei-o. “As oito no meu hotel.” – disse ele já distanciado algumas passadas da frente do café.


As oito, em ponto, eu estava na frente ao hotel onde Enzo estava hospedado. Chamava-se Judy Garland Hotel. Logo ele apareceu. Apertamos as mãos. Ele vestia um pulôver azul marinho que o deixava mais velho, mais sério. Não resisti e o elogiei: “O poeta está...” Ele me cortou e disse: “Sei, anônimo. Eu pareço mais sério com este pulôver. Ele foi um presente de um amigo de quando eu passei um aniversário em Londres. Ele pertenceu a Paul L. Monette. O amigo comprou num daqueles brechós incríveis de Camden Town. Você conhece Monette, anônimo? “Não. – eu disse lamentando minha ignorância. “Monette foi um marco em defesa do relacionamento entre homossexuais. Foi um magnífico ensaísta e também grande poeta. Vamos?” Eu confirmei com a cabeça e saímos caminhando. Ele não falou mais. Então lhe perguntei pra onde íamos. “Você é que me convidou, anônimo. Lembra?” “Claro. Claro. Humm... Já sei! Tem um lugarzinho a duas quadras daqui... Deixa eu ver estamos...Hummm...se virarmos a direita e depois á esquerda estaremos lá.”


Finalmente, chegamos ao tal lugarzinho que eu havia sugerido. Chamava-se “Losers”. Perdedores, em inglês. Eu o havia freqüentado algumas vezes que tivera em NY. Lá me sentia à vontade. Enzo olhou pro neon com o nome do café/bar e sorriu. Não perguntei nada. Sabia que aquele lugar o agradaria.


Entramos. Logo, sentimos o ambiente ao ouvir um piano tocando “Secret Love” imortalizada pela loirinha de Hollywood, Doris Day. Um garçom com cara de tristeza e profunda melancolia nos interpelou: “Buenas noches, señores. Quieren quedarse en el mostrador o en una mesa hay?” Eu olhei para Enzo que virou-se para olhar ao redor, me deixando a incumbência de escolher onde íamos ficar. “Una mesa, por favor.” – eu disse. “Por aquí.” O garçom nos guiou até uma mesa no canto, junto ao WC. Menos mal. Sentamos. “ Quieren tomar algo?” - disse o garçom. “Si, yo quiero una Bud, por favor” “Y para el señor?” Enzo olhou para sujeito como quem fosse lhe oferecer um desaforo amostra-grátis e disse: “Un jugo de Durazno con coca.” O garçom olhou pra ele, como lhe pedindo milhões de desculpas por ter que lhe perguntar mais uma vez: “Como, señor?! “Un jugo de Durazno con coca.” ”Sí, señor. Claro!”- disse o garçom sumindo por entre a fumaça e risozinhos dos presentes.


A música parou. Uma luz intensa focou um pequeno tablado do outro lado de onde estávamos. Um homem baixinho com gravata borboleta e óculos de aros de aço iniciou a fala que traduzo aqui: “Senhores, senhoras. Vamos iniciar o nosso sarau. Este é reduto dos escritores e poetas anônimos e fracassados de todos os cantos do mundo. Aqui estão e estarão sempre pessoas que sempre acreditaram que um dia pudessem ser um fracasso naquilo em que fazem. Pois eu digo: Por serem nada famosos é que os fazem ser grandes. Por aqui já passaram nomes que enveredaram para o outro lado. Esqueceram suas raízes de perdedores. Não nos faz falta. Que fiquem com os seus sucessos. Com os seus milhões de livros vendidos. Com as bajulações dos críticos da hora. Aqui estão e sempre estarão os puros fracassados. Os sem importância. Os mal vendidos. Os ineptos para os best-sellers... Losers, o microfone está aberto pra quem quiser começar.”


Enzo se levantou e sem precisar do microfone começou a declamar. Sua voz penetrou os ouvidos das pessoas como veneno de serpente na corrente sanguínea de um babuíno:


“A gorda na janela tampa o sol da manhã.


Nanô, o namorado, sempre lhe pedia:


fica na janela que eu quero te ver dando sombra à minha vida.


Todos os dias, a gorda postava-se à janela e sombreava a casa.


Só que para Nanô não bastava ver sua amada de costas.


Não bastava receber dela o frescor de sua sombra.


Nanô queria possuir aquela mulher como nenhum outro poderia.


Ele queria ser aquela mulher.


Tanto era o amor, que certa manhã ensolarada, a gorda sentiu um toque diferente.


Não o costumeiro toque de Nanô.


Ele pediu calma, calma que hoje vai ser melhor.


Aos poucos, Nanô foi se encostando, se amalgamando, se fazendo a gorda.


E ela gozando, suando, não pára, não pára.


Lá fora, o sol brilhava alto.


Dentro da casa, um corpo gordoamoroso passou a iluminar as paredes, os móveis, as roupas.


E a vida ali nunca mais conheceu a noite.

“A Gorda Sombra”, Rubens da Cunha.” – ele finalizou, mas ninguém o aplaudiu, já que era proibido aplausos ali. Estava escrito, em letras garrafais, na entrada. “FORBIDDEN TO APPLAUD!”.


Enzo sentou. Eu disse “Então, você gosta de Rubens da Cunha?” Ele bebeu um gole do seu pêssego com coca, limpou a boca com um guardanapo e, fumando um cigarro inexistente, deu uma tragada e respondeu: “Não. Eu o odeio!” Eu fiquei surpreso e não agüentei e insisti: “Mas, como? Por quê?” Ele inclinou-se e me disse quase sussurrando: “Ele ama Hilda Hilst!”. Eu fiquei mais confuso: “Mas poeta, você ama Hilda, também!” “Ele voltou-se a posição anterior e mais confortável. Apagou o “cigarro” num cinzeiro, este sim existente e falou: “Por isso mesmo, meu caro, anônimo. Eu A- M- O Hilda mais que ele!”


A noite se seguiu como eu já esperava. Silêncios, pêssegos com coca, Buds e alguns fracassados ao microfone. Ah, aqui e ali, uma musiqueta no piano, para descontrair os anódinos presentes.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Café com cicuta


















Outro dia, lendo um artigo do New York Times de 2001, que falava sobre escritores que não bebem e nem fumam, lembrei de um encontro, lá em Nova York, que tive com um amigo escritor.

Era um fim de tarde de Outono, de 2007, eu estava passeando pelas ruas da Big Appel, procurando alguns sebos, quando resolvi dar uma parada e beber um café. Os velhos e altos arranha-céus pareciam menos altos e mais velhos. Os taxis amarelos, naquela época do ano, pareciam menos amarelos e mais ocres. Do outro lado da rua, em cima de um prediozinho de cor amarronzada, um nome me chamou a atenção: “Cofee with Cicuta”. O Café era um espaçozinho bem engraçado com três mesinhas do lado de fora; todas ocupadas. Numa das mesas estava o poeta e escritor Enzo Potel. Eu fiquei super contente por vê-lo ali, tão longe de nossa terra brasilis. Fazia muito tempo que não o encontrava. A última foi em Singapura, em 2005, quando estive por aquelas plagas dando palestras para uma associação de sados masoquistas cegos e ele acompanhado de um grupo de nanoescritores da terceira idade. Resolvi atravessar a rua e ter com o meu amigo.

Enzo bebia alguma coisa, compenetrado, lendo uma edição do “A quarta Legião dos Malfadados Escritores Latinos Americanos Anônimos”, de Bárbara De La Vega, escritora, já falecida, nascida nas Ilhas Canárias; morrera aos 25 anos, atropelada por uma carroça de gerânios. Fui chegando por trás do amigo escritor e me sentei ao seu lado, silenciosamente. A princípio, ele não notou a minha presença, de tão compenetrado que estava com a sua leitura. Comecei a narrar um trecho que eu sabia de cor de um livro, cujo conteúdo ele abominava: “A vida útil dos Glutens em nós mesmos”. Senti que o amigo ficava cada vez mais incomodado ao longo de minha narrativa, até que ele desceu o livro que estava lendo na direção do colo e olhou para mim: “Só podia ser você!” – disse em latim arcaico, com uma mistura de satisfação e, quiçá, ódio, por estar sendo incomodado. Eu terminei o resto do trecho e o cumprimentei: “Caríssimo, poeta e escritor!” e ele: “Meu escritor anônimo!”. Trocamos um acanhado abraço. Perguntei o que ele fazia em Nova York naquela época do ano, já que ele costumava ir à Santa Helena no mesmo período, para lembrar dos tempos napoleônicos e tomar sol. Ele disse que fora convidado para uma noite de autógrafo do lançamento de seu mais novo livro, em inglês, “Color Pencils for Blinds”. Suas palavras, pela primeira vez, me pareciam sem convicção, secas, cruas e sem molho. Relevei e quis saber mais, afinal faziam anos sem uma prosa sequer. Enzo preferiu o silêncio. Então comecei a lembrar dos tempos em que discutíamos até a exaustão, Elliot, Balzac, Capote, Foucault, Engels, Homero, Simenon, Robbins, Tostoi, Blynton, G. White, Luluzinha e Bolinha, Rios e tantos outros, inclusive, Surfistinha, cujos originais estavam com ele e que seriam lançados somente em 2008. Enzo esperou que eu esgotasse todo o meu repertório de lembranças, sorriu e falou, amenamente: “Meu querido anônimo, você já reparou naquela tabuleta acima do portal de entrada?” – eu me virei e vi que estava escrito, em inglês, uma mensagem que agora traduzo: “Caso você não fique satisfeito, nós aumentamos a dosagem!”. Eu então perguntei: “Poeta e escritor, o que o caríssimo está bebendo?” Ele deu mais um gole na sua bebida, olhou na direção do garçom, que acabara de servir uma das mesas e disse pro jovem: “O Café estava bom, mas a cicuta fraca, fraca...”

O Magneto de Mauro Camargo


Pessoal, hoje é o dia do lançamento do mais novo livro de meu amigo, Mauro Camargo, O MAGNETO, na Casa de Cultura Dide Brandão. Infelizmente, não poderei comparecer ao evento, mas torso para que seja um sucesso e, com toda certeza, o será. Parabéns ao Mauro por mais esse trabalho.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Heil, Londrina!

















Como se já não bastasse a situação escandalosa de um professor da UFMA, por ter ofendido um aluno bolsista vindo de um nação estrangeira, agora essa aberração made in Londrina-PR. Sei que este tipo de situação não é nenhuma novidade por estas bandas sulistas. Isso me lembrou o filme Aleluia Gretchen de Sílvio Back. Vai de retro!
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OFENSAS


MP manda recolher livros com conteúdo racista em escolas de Londrina, no Paraná

Publicada em O GLOBLO 06/07/2011 às 14h56m

CURITIBA - O Ministério Público pediu à prefeitura de Londrina, no Paraná, o recolhimento de 13.500 livros distribuídos nas escolas municipais da cidade. Segundo o MP, os livros teriam expressões preconceituosas e racistas, além de erros gramaticais e de ortografia.

(LEIA TAMBÉM: MP investiga professor acusado de racismo contra aluno no Maranhão)

Segundo os promotores, são fotos, ilustrações e também poemas, que segundo o Foro das Entidades Negras de Londrina são preconceituosas. Parecer do Ministério Público, que ouviu representantes das entidades negras, além da professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), recomenda que a prefeitura recolha os livros até a próxima terça-feira.

O promotor de Saúde Pública, Paulo Tavares, disse que o Ministério Público concluiu que o conteúdo dessa coleção reforça o preconceito que sofrem os afrobrasileiros, os africanos e os indígenas, inclusive com conteúdo ofensivo à história e a cultura.

- O livro mistura essas culturas e traz ilustrações e fotos extremamente agressivas - diz o promotor.

No livro, há um texto que diz: "Cabelo duro, crespo, pixaim, piaçava, sarará, Bombril. Em resumo: cabelo ruim. Você já deve ter ouvido alguns desses adjetivos. Pergunte a todos os seus amigos (principalmente amigos negros) qual a relação que eles têm com o próprio cabelo e verá que 99% têm problemas em aceitá-lo. E o seu cabelo? Como é?", diz o texto do livro.

Em um poema, o texto diz que "uma borboleta, preta e parda, que saiu do casulo, achou-se tão feia que morreu de mágoa".

A prefeitura de Londrina ainda não se manifestou sobre o pedido de recolhimento dos livros. O Ministério público pode entrar até na Justiça para determinar que as obras sejam retiradas das escolas.

Só pra nunca esquecer, visse?















Pessoal, lendo um email enviado por uma querida amiga, falando sobre ser pernmabucano, me deparei com a sequinte frase que não sei a quem pertence e que mostra o quanto os pernambucanos são de fato orgulhosos de serem pernambucanos:

"VOCE PODE ATE TIRAR UMA PESSOA DE PERNAMBUCO, MAS NUNCA VAI CONSEGUIR TIRAR PERNAMBUCO DE DENTRO DE UMA PESSOA! "

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ah, bom, então tá!

























Bom, como deve ser feito, aqui vai a retratação do referido professor envolvido com a pior das atitudes que alguém pode ter contra outro semelhante:  a racista. Só espero que tudo seja devidamente esclarecido para o bem da UFMA, do professor e para, principalmente, o aluno que, vindo de outro país, esperava receber de nós brasileiros um tratamento fraterno e respeitoso.

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VI O MUNDO - Luiz Carlos Azenha - 2 de julho de 2011 às 14:39

Retratação pública do professor Cloves Saraiva

RETRATAÇÃO PÚBLICA

José Cloves Verde Saraiva, professor associado III da UFMA, vem mui respeitosamente pedir desculpas públicas a interpretação, certamente, dúbia do aluno nigeriano NUHU AYUBA, que durante as aulas de Cálculo Vetorial, no curso de Engenharia Química da UFMA, sentiu-se ofendido, e vem esclarecer este engano nos três itens seguintes:

1. Ao perguntar o seu nome não houve qualquer sentido jocoso, visto que sua pronúncia no seu idioma induz isto no nosso e que foi esclarecida por ele mesmo como o equivalente deste a NOÉ JOSUÉ.

2. Em conversa particular, referir-me ao Prêmio Nobel Nigeriano W. Soyinka sobre a frase “UM TIGRE NÃO DEFINE TIGRITUDE. UM TIGRE SALTA!” Quando me referi aos LEÕES AFRICANOS, que nas dificuldades de todo estrangeiro para o entendimento subjetivo de acusações preconceituais, esta não induz isso, pois sou também de cor Parda, assim como os meus familiares, e durante toda minha existência jamais proferiria tal insulto, principalmente para aluno.

3. Já referir-me em classe que “ser universitário é muita responsabilidade” e é costume dos alunos novatos (calouros) usarem as dependências da Universidade para outros fins fora do contexto educacional. Reclamei a você e aos outros colegas que não compareciam as aulas, nem fizeram os exercícios e, principalmente você, não compareceu ao PRÉ-TESTE e nem fez a sua 1ª Avaliação, além disso, não fez o PRÉ-TESTE da 2ª Avaliação, nem as suas notas de aula no caderno desta disciplina foram escritas e apresentadas até hoje. É lamentável! Faço o meu dever de professor cobrando o bom entendimento da disciplina, tendo formado excelentes alunos durante todo esse tempo, veja que a maioria dos seus colegas de classe cumpriram seus deveres e a turma passada não teve problemas deste tipo. Embora sabendo que você tem suas dificuldades naturais, como qualquer estrangeiro, deveria pelo menos se explicar, evitando interpretações errôneas sobre o seu atual comportamento como estudante da UFMA.

Firmo-me nestes termos públicos e receptivo a quaisquer outros esclarecimentos.