quarta-feira, 2 de abril de 2014

Bem a propósito




















A FESTA DE ANIVERSÁRIO 
 Por Hélio Jorge Cordeiro

O capuz negro cobriu-lhe o rosto. Escuridão. Medo. Lembranças tomaram de assalto sua mente. Não, não fecha a porta!, dizia, implorando. Uma faixa de luz atravessava o pequeno quarto e terminava perto da cabeceira de sua cama. 

Agora trafegava dentro do camburão, numa estrada. Quase caiu quando a porta do veículo se abriu e ele foi empurrado para fora. Onde estava? Quem sabe, numa delegacia. Quartel, nem pensar. Seguiu empurrado. Para onde? Sentaram-no à força numa cadeira. Gente conversando; gargalhadas histéricas; garrafas e copos tilintavam em acordes dissonantes. Quem o levou a uma festa? Iria beber até cair, prometeu. Não! Era mesmo um sequestro. Só por que não pensava como eles? Meu Deus! E minha mãe, como estará a essa altura me esperando para jantar? Era o seu aniversário. 

Bons tempos, quando ele chegava de viagem para o seu aniversário. A alegria tomava conta dela, deixando-a jovial, tal qual uma mocinha recém-admitida no liceu. Ah, minha mãe... Ficou viúva muito cedo. Abriram-lhe a camisa. Depois lhe tiraram as calças. Meu Deus! Que estão a fazer comigo? Uma voz rouca trovejou: Filhos da puta! Pensam que são os bons. Comunistazinhos veados! Quem? Eu, comunista? Que graça. Nunca quis estar metido com o pessoal do DCE. Meu negócio era mesmo as festinhas e, é claro, as meninas! Lívia! Ela era mesmo uma perdição. Transamos quatro vezes; uma no corredor do quinto andar; outra na sala depois da aula de filosofia; outra atrás da reitoria e outra na casa dela. Lívia, Lívia... Houve uma vez que Fernando Meola me chamou para ir a uma reunião estudantil, mas eu dei uma desculpa e não apareci. Na verdade, eu fui a uma, mas saí antes. Ai, que é isso, porra?! Grampearam-lhe fios nos bicos dos peitos e acionaram um dínamo! Seu corpo foi tomado por uma dor fina, aguda e contorceu-se. Dor igual ou pior da que sentira quando, ainda pequeno, teve que obturar um dente e a anestesia não pegou direito. Desde então, passou a não gostar de dentistas. Tem que ir, filho! Quer ficar que nem dona Candinha Neves? Ele criou até uma mania por causa disso: lavava os dentes mais de quatro vezes ao dia. Tinha uma dentadura invejável. 

Não saberia dizer quem, mas uma vez o chamaram pra fazer um comercial de um dentifrício. Não o fez; estava prestes a concluir a universidade e tinha que se enfiar nos livros, dia e noite. Levantaram-no da cadeira. Tiraram os fios de seus peitos e os puseram nos escrotos. Porra! O que querem de mim? Minha dor? Não vale a pena! Lhes parece muita, mas, ainda assim, é pequena! disse, com um sorriso de provocação, querendo mostrar ser poeta, mas ali não era o palco para tal exposição lírica. Um telefone sem fio! Porra! Suas orelhas ficaram em brasa e um milhão de abelhas começaram a zumbir dentro de sua cabeça, acompanhadas por uma sirene de fábrica intermitente. Como estará minha família agora? Estão à mesa à minha espera. Posso até ouvir minha irmã dizer: Josias deve estar namorando algumazinha... e meu irmão mais velho: Ele deve estar com algum problema na Rural. Enquanto minha mãe: Vamos esperar o Jô, ele virá! 

Jogaram um pouco d’água no seu corpo nu. Que frio. Banho, é? Ainda não tomei, aliás ia tomar quando vocês chegaram! O colocaram de costas e retiraram o capuz. Que alívio! Obrigado! Em seguida, enfiaram sua cabeça no tonel com água! Ah, aquelas férias em Barra do Uma! Quase me afoguei. Também pudera, bebi que nem um gambá. Aquilo sim eram férias de verdade. Acampamentos, mulheres, bebidas, peixes. Noite de serestas... Já não aguentava tanto tempo mergulhado. Queria se soltar, mas os braços e mãos que o agarravam eram imensos e fortes. “Esse filho da puta é forte!” “Melhor, temos mais diversão!” 

Aquela noite foi a mais longa de sua vida e a última. 

Os pratos já estavam todos limpos; sua irmã já tinha se recolhido e lia, na cama, A Mãe, de Máximo Gorki. Já seu irmão, fora para casa. Morava sozinho. Não muito longe dali, em algum lugar na periferia, cavavam um buraco para jogarem Josias. Sua mãe continuou a esperá-lo para o seu aniversário.

 (Este conto fez parte do livro “Assassinos S/A – Contos Policiais Brasileiros – Antologia Ficção, Editora Multifoco – Rio de Janeiro, 2009, páginas 11 e 12.)

2 comentários:

fatima vanzuita disse...

O texto é muito bom, me vi sentada na cadeira, mas, jamais poderia saber de fato, viver uma expe- riencia como esta. Na minha adolescencia, pouco se ouvia falar, pelo menos em casa. Talvez meu pai tenha criado uma blindagem, apenas no colégio é que tiraram um cartaz feito por mim, onde no lugar das cores verde e amarelo, eu representei com o cinza as queimadas, as chamines no lugar do azul e punhos com facas no amarelo, na faixa é este o progresso? Já estava na fase final deste período e não houve mais nada. um abraço!!

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Tristes tempos, Fátima. Que nunca mais voltem. Aliás, a tortura ainda vive presente nas vidas dos negros e brancos pobres, dentro das cadeias desse país.