terça-feira, 6 de julho de 2010

Lembranças numa preguiçosa tarde de domingo
















Ontem, dia 04 de Julho, um domingo, tarde de sol de um esplêndido céu azul sem nuvens, umidade relativa do ar lá em baixo, de repente, comecei a escutar um repetitivo som de percussão, vindo não se sabe de onde. O toque foi crescendo, crescendo, até que, finalmente, o identifiquei. Era de uma fanfarra! Uma pequena, mas afinada fanfarra escolar. Corri até a janela de meu quarto para ver de onde vinha. Logo, vislumbrei um grupo de jovens estudantes – todos à paisana – desfilando rua abaixo. Um xilofone marcava a cadência, tocando o tema do filme A Ponte do Rio Kwai. Os bumbos davam o ritmo retumbante da marcha que seguia rua afora. As caixas deixavam claros seus marciais compassos, assim como os pratos, que davam um ar imperial ao tema, enquanto as marcações dos surdos respondiam às caixas e aos taróis. As porta-bandeiras com os pendões de todos os Estados da federação – eu lamentei não ver, entres elas, a de meu Pernambuco – faziam evoluções de maneira guapa, mesmo com alguns pequenos contrapassos. De imediato, me transportei para os anos 60, para minha infância em Arcoverde, Pernambuco e para os muitos 7 de Setembro em que lá passei.

Me vi, cabelo a la Jack Dempsey, fardado - calça azul natiê, de tropical, camisa azul claro, de cambraia, com mangas compridas, gravata preta, bibico do mesmo tecido da calça, sapatos Vulcabrás e cinto pretos, empunhando uma baqueta e fustigando, compassadamente, o couro de um surdo novinho em folha. (Os meus olhos cansados pela miopia e astigmatismo, marejaram com essa imagem). Pude ver-me ali, pelas ruas lotadas da capital do sertão de Pernambuco, com as famílias dos garbosos fanfarristas, das porta-bandeiras e das belas balizas, que iam à frente do cortejo, a fazer evoluções com seus bastões coloridos, vestidas com suas indumentárias curtinhas, deixando à mostra toda a graciosidade e o viço de seus corpinhos inocentes. Eu vi minhas queridas sobrinhas marchando, ditosas. Vi, também, a minha mais que estimada e prestimosa irmã, que à época fazia o papel de minha mãe, toda orgulhosa. Até vislumbrei o meu bom e zeloso cunhado, que aparecia quando era possível, já que vivia pelas estradas da vida a bordo de seu FêNêMê. Ah, meu deus! Que tempos eram aqueles! Mesmo assim, ainda fui exigente e exclamei em voz alta: “Poxa, cadê os metais?!” É que naquela época, os metais faziam a diferença, entre uma fanfarra “amadora” e uma “profissional”. A do São Geraldo era “amadora”, pois contava apenas com um corneteiro, emprestado pelo Tiro de Guerra local, enquanto a “profissional” era a do Colégio Cardeal Arcoverde,(onde estudei até o curso de admissão), que contava com alunos músicos, mas desta eu não participei.

Eu estava vivendo tudo aquilo outra vez, em pleno 2010, através de um grupo de estudantes de uma escola pública de Chapecó, SC, que insistiam em manter essa tradição, desfilando e ensaiando pela minha rua, numa preguiçosa tarde de domingo, tirando-me da minha inércia de final de semana. ”Puxa vida! Nem tudo está perdido!” - pensei alto, enxugando umas gotas salgadas, que insistiam em escorrer por entre os evidentes pés de galinha de meu rosto.

Eles evoluíram pela rua de baixo e se foram, mas os meus tempos de menino desfilando pelo Instituto São Geraldo ficaram em minha memória pelo resto da tarde, denunciados por um largo sorriso que ia de um canto da boca ao outro.

4 comentários:

Euzinha disse...

Mon ami,

Infelizmente nunca desfilei em tão auspiciosos dias, nem em Arcoverde, nem em Olinda, mas sei o que você sentiu, porque me lembrei da banda do São Bento que, quando passava, arrebentava os ouvidos dos da Terceira Idade e os corações das donzelas, como eu...

Kisssssssssss

Hélio Jorge Cordeiro disse...

euzinha! té que fim, neguinha! pois é, eu não sentia nada, nenhum fanequito pelos os rapazes do sanbento! rsrsrs, mas não deixei de lembrar com um arzin sardade umas belezocas de arcoverde que, claro, não eram pro meu bico...ficava com uma vooooontaaaaade...
bjos

Graziela disse...

Oi Hélio!

Adorei o blog, tu escreves muito bem.

Abraço

Grazi

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Olá, Grazi, obrigado. Apareça sempre!