quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um rosto bonitinho e nada mais






















Narciso Gleywilson da Silva era um tipo bem aparentado. Alto, olhos puxando pra esmeralda, pele bronzeada; sorriso largo de dentes alvíssimos. Assim como o seu nome indicava, ele era mesmo um sujeito narcisista. Narciso e o espelho eram como se fossem irmãos xenófobos. Um dependia do outro pra viver. Narciso se vestia, digamos assim, extravagantemente diferente. A pecha de cafona lhe cabia muito bem, mas isso não vinha ao caso. A verdade era uma só: Narciso era mesmo um rostinho bonito.


Naquele dia de sol claro e com poucas nuvens, ele acordou e logo correu pro espelho como fazia todas às vezes quando acordava. Ele olhou-se, re-olhou-se, re-re-olhou-se e, finalmente, correu pra trocar-se. Abriu a porta do armário, e quem estava lá a sua espera? Claro, outro espelho! Ele vestiu sua melhor roupa e saiu à toda do pequeno apartamento onde morava. Narciso teve que correr como um louco para a entrevista a uma revista estrangeira e uma sessão de fotos num estúdio onde só pintava por lá figurinhas carimbadas das passarelas de moda; ele estava mesmo muito atrasado!


Só para ilustrar o quanto a beleza de Narciso era mesmo uma unanimidade, tinha como testemunha, Bob Scissors, o cabeleireiro da esquina. O referido coiffeur adorava quando tinha que lavar o cabelo do jovem modelo; mexia pra lá, mexia pra cá; tome xampu disso daquilo e daquilo outro. Narciso passava mais horas no salão de Bob Scissors do que em sua própria casa. Certa vez, Bob que era natural de Surubim, Pernambuco, disse em suas memórias que quando massageava os cabelos de Narciso era como se massageasse os cabelos de um anjo... “Dava vontade de apertar, dar vontade até de...” Já outro cabeleireiro bem afamado junto as socialites, Ulisses Chanel, comentou certa vez pra um colunista social: “A minha vontade era de levar ele pra casa, para sempre!” A manicure Lilibeth e a proprietária de outro salão, Anamaria Brígida, também comungavam do mesmo pensamento.


Narciso mantinha-se sempre calado, distraído com sua própria imagem, refletida por vários espelhos espalhados pelo salão. Às vezes, comentava alguma coisa, mas era muito raro; “Ele era um bofe de poucas palavras.” – comentou certa vez Bob Scissors, no intervalo da XI Araçatuba Fashion.


Narciso chegou momentos antes de fecharem as portas do estúdio. Suado e ainda ofegante, ele recompôs-se e entrou. Dirigiu-se à recepcionista. Logo foi reconhecido e foi para outra sala, onde já esperavam o jornalista e o fotógrafo. Lá, se encontravam os modelos top das feiras de moda, exuberantes espécimes femininos e masculinos da beleza tupiniquim. O lugar era um verdadeiro pirão narcísico.


Narciso decidiu que daria a entrevista após sessão de fotos. Ele foi pro set; clica daqui clica dali, até que um spot de luz estourou, provocando um alarido e depois um pandemônio no set.


Logo o fogo tomou conta dos tecidos plásticos que faziam o cenário. Um assistente tentou abrir a porta, mas por um acaso do destino, ela travou e não abriu. Naquela altura, o fogo já consumia tudo que encontrava pela frente. Narciso procurava se esquivar como podia das chamas. O fotógrafo foi a primeira vítima. O infeliz corria em círculos aos gritos com o corpo tomado pelas labaredas. O jornalista que iria entrevistá-lo e os modelos conseguiram se escafeder do lugar a tempo. A fumaça começou a sufocar todos. A aquela altura, o fogo tinha se tornado a estrela máxima do set!


Uma hora após, o incêndio tinha sido debelado, mas o set tinha sido consumido pelo fogo. Só restaram escombros. Uma câmera Hasselblad parecia um bolo de chicletes de cupuaçu mastigados. Ela ficara grudada ao que restou de um banquinho de ferro que mais parecia uma obra de Alberto Giacometti do que propriamente um objeto para sentar.


As vítimas do sinistro foram levadas para o hospital de queimados. Entre elas, Narciso. Mas para surpresa de todos, o fogo lhe queimara tudo do pescoço para baixo até o dedão do pé. Milagrosamente, seu rosto fora preservado, mantendo-se belo como antes. O milagre foi motivo pra muitas reportagens sensacionalistas e entrevistas com os mais importantes apresentadores de talkshows.


Passados alguns anos, mesmo deformado, manco de uma perna e com uma mão atrofiada, Narciso ainda foi, por muito tempo, a estrela máxima das capas de revista e dos anúncios de propaganda.


Mas para crítica especializada, Narciso continuou sendo, simplesmente, um rosto bonitinho e nada mais.

2 comentários:

felipe disse...

helinho, a letra tá muito pequena, to quase vesgo aqui

Hélio Jorge Cordeiro disse...

Retifico, para que possas ver adequadamente, oh, donairoso jornalista! rsrsrsr